quinta-feira, 10 de julho de 2014

Viriato pelo FdC no Castelo de Almourol


VIRIATO


Castelo de Almourol - V N Barquinha

12 e 19 JUL • 19h19
Duração: 2h22

Acesso: € 22,22 (inclui refeição)
Reservas:960 303 991
reservas@fatiasdeca.net
www.fatiasdeca.net

Carlos Carvalheiro e Filomena Oliveira
versão teatral de "A Voz dos Deuses" de João Aguiar

Tongio encontra-se finalmente só, envolto pelo grande silêncio da terra, em paz com todos os homens e pode ouvir a voz do Senhor Endovélico.  No seu santuário, porque é a voz dos deuses que decide o destino dos homens mesmo quando eles não lhe dão ouvidos, reencontra nas suas memórias de oitenta invernos, imensas alegrias e tristezas. Arduno, seu antigo amigo e companheiro de jornadas, tinha razão: o seu mundo, o da antiga Lusitânia pré-romana havia acabado. Via-se obrigado a registar tudo na língua do invasor,  a única em que era capaz de escrever e que viria a dar origem àquela em que construímos este texto. Tinha porém consciência de que algo do seu mundo ameaçado haveria de perdurar.

Tongio tinha pressentido, desde muito novo, que as portas da Lusitânia se haviam aberto muito cedo. A fama das suas riquezas chegou a nações muito longínquas. Correu célere.
Varrão, como informa Plínio, cita Iberos, Persas, Fenícios, Celtas e Cartagineses, como povos visitadores da Hispânia.  Primeiro, vieram pela febre das riquezas; mas depois, a amenidade do clima, o arroubamento da paisagem, a produção agrícola, e os mistérios do mar deslumbraram-nos e foram ficando.

Durante as Guerras Púnicas, Cartago fez tudo para aumentar as suas possessões na Hispânia — terra muito rica em cereais e minérios. Durante a Segunda Guerra contra a grande potência do Norte de África, os Romanos toleraram essas operações rivais, para recuperarem o saque de guerra que fora imposto aos vencidos.

Com o enfraquecimento de Cartago, Roma propôs-se submeter toda a Ibéria. Em 147 a. C., alguns milhares de guerreiros lusitanos encontram-se cercados pelas tropas do pretor Galba. De início, não parecia passar de mais um episódio da guerra que a República Romana sustinha há dilatados anos para se assenhorear da Península Ibérica. Contudo, contrariamente ao que era seu hábito, os Lusitanos elegem um dos seus homens e outorgam-lhe o comando supremo. Esse homem, chama-se Viriato e, durante sete anos, vai ser o pesadelo de Roma.

Embora estivesse a lutar contra a cidade mais poderosa do mundo, Viriato venceu sucessivos exércitos romanos, levou à revolta a maior parte dos povos da Ibéria e foi responsável pelo início da célebre Guerra de Numância, até ser morto à traição pelos seus em 139 a. C.

Viriato foi um notável génio militar, político e diplomático, defensor de um mundo que lentamente ia morrendo asfixiado pelo poderio romano: um mundo onde mergulham as raízes mais profundas de Portugal e de Espanha, visto que houve muitas coisas intocadas pelos Romanos e que ainda hoje conservam a pureza indígena.

É esse mundo — ainda vigoroso, mas já crepuscular — que sentimos ao ver a peça.

O espectáculo é constituído por duas partes e desenrola-se com o Tejo e o Castelo de Almourol em pano de fundo: a primeira, antes do pôr-do-sol, altura em que acontece o casamento de Viriato e de Tangina, «personagem apagada, quase inexistente no livro e que surge aqui com uma força, uma importância, uma intenção muito especiais, o que permite abordar, com densidade e eficácia, certos aspectos políticos, militares (e logísticos) da acção de Viriato como chefe das hostes lusitanas em luta contra a República Romana.»

A segunda parte decorre à noite. No intervalo, o público é convidado a participar no banquete de casamento. Sabe-se que os ritos lusitanos do casamento de Viriato não foram certamente os que observamos. Porém, o rigor histórico aqui pouco importa. Até porque uma representação teatral nunca pretenderá ser o espelho objectivo da História, mas a imagem do real matizada de lenda e de imaginação; já os nossos avós Gregos o faziam no seu teatro clássico do século V a.C.

Os autores desta versão souberam muito bem tecer um magnífico texto e combinar a fluidez do material original — a narrativa — com os diálogos. Foi um trabalho por certo difícil, feito de equilíbrio e contenção, mas plenamente conseguido.
O trabalho de dramatização, operado com inteligência e sensibilidade, permite uma clara compreensão do romance e dos factos históricos.

Mas o melhor é contemplarmos o espectáculo, senti-lo na interioridade e depois assistirmos outra e outra vez e vivermos com ele a nossa primeira epopeia lusa.

{Manuel Branco, via Facebook do Fatias de Cá)